Este livrodestina-se aos amigos mais raros. Creio que vou encontrar. Só o futuro me pertence. Há amigos que nascem póstumos. Conheço muitas bem as qualidades que devo ter para que alguém me compreenda, aquelas que necessariamente o forçam a compreender-me. Para suportar a minha seriedade e a minha paixão é preciso ser íntegro nas coisas de espírito até às últimas conseqüências; estar acostumado a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo atual de algumas amizades e do egoísmo das pessoas; e, finalmente, ter-se -tornado indiferente e jamais perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma inclinação para enfrentar questões que hoje ninguém se atreve a elucidar; inclinação para o proibido; predestinação para o labirinto. É preciso que tenham uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma música nova olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até hoje permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reunir a sua própria força, o seu próprio entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade absoluta para consigo... Muito bem, só esses são os meus amigos, os meus verdadeiros amigos, os meus amigos predestinados: que importa o resto? O resto é somente a indiferença. É necessário ser superior à indiferença em força, em grandeza de alma – e em desprezo...
14:04 - 22/02/2006
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